Ser ou não ser, eis a questão…

 

Um dia desses, ao realizar um passeio com minha família no shopping da região, um passeio simples, nada demais. Compramos algumas coisas, paramos pra comer na praça de alimentação, andamos pra lá e pra cá, normalmente como qualquer mortal carioca.
Observei que muitas pessoas ficam maravilhadas em ver o pequeno, olham, brincam, riem, ficam falando sozinhos imitando criança (coisa que sempre achei engraçado, mas se tornou o meu dialeto de comunicação com o Vicente), mas o que me chamou atenção, foram as pessoas que olhavam com uma certa negatividade, com um ar de “nossa, eles tem um filho, é isso mesmo?”, como se ter um neném fosse um péssimo negócio a se fazer.
Passado o dia, já em casa, neném no berço
dormindo, fiquei pensando nos fatores que levam as pessoas a nos olharem com desdém.

FB_20151224_20_30_15_Saved_Picture
Arteide, Satirical Illustrations, 2015
Ter um filho não está na moda? Constituir família é coisa do passado? O que importa hoje em dia é tirar fotos de bebidas importadas sem nem sabe o país de origem? O investimento que demanda um filho é jogar dinheiro fora? Poderia comprar uma casa de praia com esse investimento? Ou uma moto esportiva com 1 Cv para cada kg? Vai saber Hoje em dia eu acredito em tudo!

O investimento é alto e daria pra comprar vários dos itens supracitados, mas há uma grande diferença entre preço e valor.
Quando eu comecei a amadurecer a ideia de escrever em um blog, eu li um livro bem bacana, chamado
“O Papai é Pop”, na contracapa dele havia um texto, ou melhor, uma citação de um dos capítulos que retrata bem essa questão de investimento e tudo mais, que diz:

Estou pagando pra pegar trânsito no primeiro dia de aula. Estou pagando para ver apresentações de final de ano. Estou pagando por desenhos feitos só com uma cor, onde apareço sem nariz. Estou pagando satisfeito por isso, preciso dizer. Estou pagando esta dinheirama para ser chamado de herói quando mato uma barata. Estou pagando essa pequena fortuna para pegar a bola que caiu no terreno do vizinho e ser aplaudido pelas pequenas. Estou pagando para saber tudo, sobre todas as coisas, e ter respostas para todas as perguntas. Estou pagando até barato por isso.
Estou pagando uma pechincha por abraços. Cada abraço de uma menina de três anos me economiza uma fortuna que eu gastaria com psiquiatras. Cada beijo de boa noite me alivia a conta do cardiologista. Cada ‘eu te amo’ me afasta do hospital. É um achado o que estou pagando por tudo isso. Que sorte gigantesca ter achado essa barbada. Que promoção maravilhosa, essa de ser pai.” (Piangers, Marcos. O Papai é Pop, 2015)

O que realmente penso, é que estamos na Era das inversões de valores, das banalizações, do circo dos horrores, realmente é um caso a se pensar ter um filho nos tempos em que vivemos, mas não por questões financeiras ou conveniência moral, optar por ter um filho nos tempos atuais é acreditar no futuro, e plantar uma semente do bem para ver a diferença no amanhã, é ver a cura do câncer, é ver a fome ser erradicada.

Você acredita no futuro? Caso não acredite, vou entender sua expressão quando passar por você no shopping com meu pequeno grande homem.
O grande Rui Barbosa disse essa frase quase há 100 anos, porém parece que ela foi dita nos dias de hoje.
De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
(Barbosa, Rui. Senado Federal. Rio de Janeiro, DF. 1914).

Anúncios

Canção de Ninar

Esses dia reparei que o Vicente tende a ficar mais calmo no colo da minha esposa do que no meu, calma, eu sei que o bebê inicialmente tem tropismo pela mãe, mas eu ignoro e quero ter os mesmos resultados.

Primeiro achei que era pela posição, tenho preferência de ficar sentado com ele e ela por ficar de pé, andando de um lado para o outro.
Depois associei a anatomia, mamãe tem o colo macio e aconchegante e papai parece que engoliu uma gaiola de 3 andares, pois é…
Finalmente decidi perguntar a minha esposa qual era a técnica que ela utilizava no “front”, ela disse: “amor, você tem que conversar com ele ué”. Conversar? Eu já converso ora bolas, deixei pra ela e segui observando como um felino observa sua presa. Ah! Ela canta pra ele, é isso!
E agora? O que vou cantar pro Vicente? Meu repertório de músicas de ninar tem zero faixas.
Rapidamente vi a solução, a luz no fim do túnel, fiz uma versão adaptada de “Coelhinho se eu fosse como tu“.
Que ficou assim:
“Nenezinho se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso e botava a mão no…
Papaizinho se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso e botava a mão na…
Mamãezinha se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso e botava a mão na…”
*Repetir a sequência até o neném dormir.
 
No início achei que deu certo, mas eu acho que a cadência e as frases repetitivas foram irritando ele e logo começou a chorar. Acho que ele é seletivo como eu para músicas (tomara que seja), e logo me vi em xeque, era a única musiquinha do repertório de ninar.
Decidi mudar o plano e cantar músicas das quais eu gosto e ver a reação do neném seletivo. Comecei a cantar “Alma Nua” do Vander Lee:
“Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta”
 
Por incrível que pareça, no primeiro terço da música ele já estava pregando os olhos de sono e antes que eu chegasse ao fim ele já estava dormindo, logo, coloquei-o no berço de forma categórica e triunfal, como um guerreiro nórdico que volta do combate, orgulhoso de reduzir o placar para: Bruno 1 x 29 Vicente…
Um dia eu viro esse placar moleque!

NAN, O Pó Dos Deuses

Engraçado, eu sempre achei que dos anos 2.000 pra cá, as pessoas ficaram meio que “sintéticas”, sem muita referências das décadas anteriores, creio que com a chegada da internet e o “boom” tecnológico que tivemos nesse período. Eu já sou ao contrário disso, claro que faço uso de tudo que a tecnologia tem a nos oferecer (e gosto!), mas as minhas referências não são essas, eu sinto falta das corridas nas ladeiras com carrinhos de rolimã, das brincadeiras de bandeirinha, do “polícia e ladrão” valendo no bairro inteiro, subíamos em árvores lá no final do bairro e ficávamos lá no alto entre os galhos o dia inteiro, só pra não acharem a gente e ganhar a brincadeira, levávamos a sério! Chegava em casa todo ralado, sujo, a gola da roupa cabia 4 cabeças de tão arregaçada, passava mato nas feridas achando que era remédio cicatrizante, matava aula pra comer jamelão… Bons tempos…Música então…Vou deixar pra outra ocasião.

Hoje você vê adolescente que pede secador de cabelo de presente, se a roupa estiver amarrotada reclama, só bebe Coca-Cola, parece uma geração andrógena, não sabe se é menino ou menina pela forma de agir, não sabem o que é pedir licença da brincadeira e ir beber água da mangueira com a tia que está lavando a calçada.
Partindo desses princípios, cogitei sobre essas variantes de décadas e correlacionei com instintos e suas relações fisiológicas. Tive a impressão que a nossa geração não herdou estímulo para produzir leite materno como as gerações passada. Antigamente você via crianças com quase dois metros de altura, falando 2 idiomas e mamando no peito ainda.

Seria as preocupações do dia-a-dia? Nossa rotina maluca? As milhares de conta para pagar? Os diversos métodos terapêuticos e processos hospitalares que inibem a naturalidade da coisa?
Pode ser que eu esteja enganado, mas como diria Chicó em O Alto da Comparecida: “Não sei, só sei que foi assim”.

Eu pensei que o Vicente largaria o peito, mas imaginava que seria depois de 1 ano, puro engano!
Com menos de 1 mês já estava com a dieta 100% NAN, claro, por diversos fatores onde não há culpados nisso, todos fazem parte de um mesmo processo.
Com isso, veio a fase de começar a comprar NAN, eu pensei: “Bem, ele mama 30 ml, usa apenas 1 medida de NAN, vai durar uma eternidade uma lata”.
O NAN é reconstituído da seguinte forma: para cada 30 ml, 1 medida de NAN.
Acontece que o Vicente com 10 dias passou para 60 ml(2 medidas), e logo passou para 90 ml(3 medidas) e já vai passar pra 120 ml, ou seja, de 1 para 4 medidas de NAN em menos de 1 mês. Fico imaginando… Se ele continuar nessa proporção evolutiva, daqui 2 meses ele estará usando uma lata inteira por mamadeira?
Você abre uma lata de 800 g e quando pisca está aparecendo o fundo em meio ao pouco de pó que resta.
Isso tudo me remete a uma outra observação, o Vicente quando está com fome, parece que o mundo está acabando, chega assustar o desespero que ele faz, por ser o único método que ele tem de avisar que está com fome, ele faz com vontade mesmo! Quando vai chegando a hora dele mamar, paralelamente vai baixando aquela aura de tensão do desespero, esses dias eu pensei que o vizinho chamaria a polícia, e é sério, rs.
Fico pensando nas pessoas que não podem disponibilizar leite para seus bebês, o que eles fazem para acalmar a criança desesperada…Muito triste isso.
Bom mesmo é o leite materno, incomparável, único! Mas, como diria um velho moribundo: “Quem não tem cão, caça com gato”, salve o pó do neném.
Melhor coisa que inventaram, funciona em modo “plug and play”, é só plugar a chuquinha e o problema cessa na hora, eu quase me emociono quando vejo muitas latas de NAN juntas no mercado, eu tiro até fotos quando vejo mais de 10 latas reunidas. Esses dias eu pensei em fazer um quadro de óleo sobre tela de uma lata de NAN e por em uma moldura clara e simples com o título: O pó dos deuses.
WP_20151220_12_37_39_Pro
Sendo caro ou não, mamando pouco ou muito, aquele suspiro de saciado que ele faz a cada chuquinha e o sorriso inconsciente quando está pegando no sono de barriga cheia e a boca cheia de respingos de leite valem ouro! Não há dinheiro que pague ver seu filho partir pra mais um soninho depois de estar com a barriga cheia.

O início

Era uma noite quente de quarta-feira, ainda havia luz solar quando cheguei à rua que dá acesso ao local onde moro, uma rua sem saída e rodeada de floresta, os mosquitos que já rodeavam qualquer ser possuidor de sangue como de costume, o cavalo do haras pastava nas gramas das calçadas, como sempre. Terminava mais um dia de trabalho, parei a moto em frente a casa, retirei a jaqueta abafada de suor e entrei para mais uma noite em casa, pois como trabalho a noite, dormir em casa é um luxo.

WP_20151221_19_40_08_Pro

Desde o nascimento estou acostumados a ter meu pai próximo, meu primeiro contato, seguido dos pais de meus pais (meus avôs), estive com eles por pouco tempo, pela infância somente, perdi os dois antes de entrar na adolescência, de qualquer forma, guardo boas recordações deles.

 Com o passar dos anos, começamos a perceber que todo mundo é pai, nossos colegas de trabalho, nossos vizinhos, nossos irmãos, chefes, dono da padaria, o senhor que vende bala no sinal, o policial que morreu no noticiário da televisão que assistimos.
Um belo dia descobrimos que vamos ser pai também e logo criamos diversos questionamentos: E aí meu amigo? Estou preparado? Esse é o momento? O que vou fazer agora?

Esses questionamentos e muitos outros surgem na cabeça de todos nós, creio que seja normal para qualquer pessoa com um mínimo de responsabilidade, é como uma corrida de revezamento 4×100, onde um vai passando o bastão para o atleta seguinte. Pode demorar, mas você sabe que uma hora o bastão chega em suas mãos, de avô para pai e de pai para filho. Nesse caso, o bastão somos nós e nele levamos a carga genética dos nossos antepassados.

A resposta, é que teoricamente ninguém está preparado, tudo é novo, tudo é diferente de qualquer coisa que vimos antes, a paternidade é uma coisa única na vida de qualquer homem e ninguém tem capacidade de se preparar para isso previamente.

Na noite que cheguei em casa, soube que o parto estava definido para o dia seguinte, pela manha da quinta-feira. Foi uma noite tensão, pouco dormimos. Acordamos cedo, e fomos para o hospital por voltar de 05:30 da manhã, ficamos aguardando a chegada da equipe médica que realizaria o parto.
Durante a gravidez, não tive grandes mudanças (psicologicamente falando), continuei com meus hábitos, rotinas e costumes naturalmente.
No momento que entramos no centro cirúrgico estava tranquilo, como sou profissional de saúde, estou habituado a ver procedimentos e estar inserido nos processos hospitalares. Fiquei aguardando no vestiário masculino que dá acesso ao centro cirúrgico, já com roupas próprias, touca, sapatilha e nada ansioso.
De repente a porta se abre e uma profissional apressada diz: “vem pai, está na hora”, ela me conduziu até a sala que estava acontecendo a cirurgia e pediu para eu ficar encostado na parede, lembro-me de uma observação que achei muito engraçada que ela fez: “se você sentir que vai cair, senta! Ok?” Eu pensei comigo “eu trabalho em emergência de Hospital Federal, vou cair em ver o parto do meu filho?”, claro que ela seguiu o protocolo padrão, além de não ter obrigação de saber a profissão das pessoas que passam por ali, mas foi engraçado.
E ali fiquei, ouvindo o som e sentindo o cheiro de “pena queimada” que o bisturi elétrico faz ao cortar e cauterizar ao mesmo tempo os tecidos, corta daqui, afasta dali, puxa com jeitinho…
Quando finalmente chegou o momento mágico, a hora que nosso filho sai do ventre da mãe, pendurado pelas pernas, todo molhado, trêmulo, perdido, frágil… E no primeiro suspiro de vida seus pulmões se expandem, enche de oxigênio e vem o primeiro choro, nesse momento ouvimos o timbre da voz dele, momento lindo, todo abertinho, completamente dependente. O rapaz traz ele e para na sua frente, você olha seu primogênito, seu sangue, coisa de doido!
Eu já passei por muita coisa, já quase perdi a vida diversas vezes, já tive descargas de adrenalina altíssimas, mas nada se compara a sensação de ver o seu filho nascer, emergir do ventre para a vida aqui fora, para o deserto do real.

Nosso Vicente nasceu prematuro, com 8 meses de vida, mas como já sabíamos da possibilidade dessa evolução, entramos com medicações para maturação dos pulmões dele antecipadamente e o prognóstico foi bom, correu tudo dentro dos conformes.
Penso que a paternidade seja o ápice da nossa missão na terra, agora tudo faz sentido. Se você pretende ter seu primeiro filho, não tenha medo, se ficar esperando  a segurança aparecer, esse dia nunca chegará. A segurança vem com o tempo, com o aprendizado, um filho tem muito mais a ensinar aos pais do que o inverso, só quem é sabe.